Um dia após tumulto no Carmelitas, Céu na Terra desfila em Santa Teresa escoltado por agentes da ordem pública
Integrante da produção do Céu na Terra desde sua fundação, em 2001, Julio Barroso afirmou que o problema não foi causado pelos ambulantes, mas por falhas na organização do poder público.
— Não podemos culpar quem está tentando trabalhar debaixo desse sol forte. O problema é a falta de planejamento. A prefeitura reforça a estrutura nos megablocos e deixa os demais com poucos serviços — afirmou.
Enquanto o produtor falava, três carros da Seop se posicionavam ao redor da Avenida Almirante Alexandrino, nº 89, onde o bloco iniciou sua concentração às 7h.
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— Ninguém quer passar o carnaval trabalhando sob o sol. Se estamos aqui, é por necessidade. A prefeitura precisa rever sua organização, com prazos mais adequados para o cadastramento e orientações claras para os ambulantes — disse.
Enquanto o bloco se organizava para descer pelas ladeiras do bairro, era possível observar uma multidão de ambulantes dividindo espaço com os foliões. Em sua maioria, os camelôs não possuíam crachá nem credenciais de licenciamento da prefeitura e circulavam em grandes triciclos de ferro, carregados de bebidas, gelo e até churrasqueiras com a brasa acesa.
Um dos poucos ambulantes credenciados próximos ao bloco, João Pedro, de 32 anos, trabalha vendendo bebidas no carnaval há quatro anos e afirma nunca ter visto tantos vendedores reunidos em um único bloco. Ainda assim, defende os colegas de profissão.
— Eu prefiro me cadastrar para não ter problemas, mas é um processo trabalhoso e nem todo mundo consegue. O lado ruim é que acaba atrapalhando um pouco as vendas, mas faz parte, todo mundo está precisando — contou.
João realizava as vendas com um isopor pequeno acoplado a um carrinho de mão e destacou a falta de orientação oficial.
— O que falta mesmo é instrução: onde a gente pode ficar, como deve se comportar no bloco. Eu já estou mais cascudo e tenho uma noção, mas quem está chegando agora fica perdido — disse.
Entre os foliões, a presença massiva de ambulantes divide opiniões. O professor de artes Ricardo Beda, de 26 anos, que participou do bloco das Carmelitas na véspera, lembra do momento em que o desfile foi interrompido.
— Foi totalmente inesperado. A gente estava andando até rápido quando avisaram que o percurso seria encerrado. Sabemos que é o trabalho deles, mas essas bicicletas enormes atrapalham um pouco, e a cidade está mais cheia do que o normal — afirmou.
Já o jornalista Anderson Vitorino, de 46 anos, avalia que o ocorrido era previsível e reflete o momento social e econômico do país.
— Era o maior bloco da sexta-feira. Não havia outros tão conhecidos no mesmo dia, então era óbvio que os ambulantes iriam em peso. Faltou inteligência da prefeitura para entender isso e se preparar — disse.
Fantasiado com uma crítica política, Anderson usava um adereço que lembrava a ponta de um para-raios, em referência ao episódio ocorrido no mês passado, quando apoiadores do deputado Nikolas Ferreira foram atingidos por um raio durante uma manifestação. Os amigos Fernanda Maia, de 47 anos, e Marcelo Oliveira, de 56, também escolheram fantasias que faziam alusão ao mesmo episódio.
Moradora de Santa Teresa desde que nasceu, Fernanda defende a presença dos ambulantes no Carnaval do bairro.
— Eles fazem parte do Carnaval daqui, muitos são moradores e estão presentes todos os anos. Não podem ser responsabilizados pela má organização da prefeitura — concluiu.